Simulações da União Europeia: o contacto mais íntimo (e divertido!) dos jovens com o Direito Administrativo
Simulações da União Europeia: o contacto mais íntimo (e divertido!) dos jovens com o Direito Administrativo
Uma das principais preocupações da União
Europeia é sua perpetuação. Que seu legado criado em 1993 com a assinatura do
Tratado de Maastricht, persista e evolua por muitos anos. E a única maneira de
garantir a sobrevivência do bloco é através dos jovens europeus que o compõem.
Por isso, a União apoia, financia, organiza e parabeniza toda e qualquer iniciativa
jovem voltada para a propagação dos ideais e valores do Bloco, assim como seus
feitos e o impacto que causam na vida dos seus cidadãos. Os esforços da União
apresentam resultados: existem, entre os países membros do Bloco assim como os
estados candidatos, inúmeras iniciativas, associações, e sociedades com o
intuito de aproximar os jovens da união. A titulo de exemplo, temos a One Hour
For Europe[1]
(da qual faço parte, na sede de Lisboa, como colaboradora do Departamento de Justiça),
cujo objetivo é levar aos jovens, principalmente através das redes sociais, as
realizações do Bloco e as últimas notícias acerca de suas resoluções, diretivas
e afins.
Mas além de mostrar aos jovens o que a União
Europeia tem feito por eles e pelo mundo, a melhor maneira de fazer com que
os europeus efetivamente compreendam
todo o processo que leva à resolução final (que é complexo, diga-se de
passagem) é sentir isso na pele com os chamados Modelos de Simulação da União
Europeia, onde os jovens não só aprendem sobre o funcionamento do Bloco, como também
aplicam na prática o processo legislativo ordinário, as negociações entre os
ministros ou parlamentares e entre estes, criação de emendas, porcentagem de votos e muito mais.
Criadas em 2007 por um grupo de jovens
universitários em Estrasburgo[2], as
MEUs, (sigla original para Model European Union), através maioritariamente da
BETA (Bringing Europeans Together Association)[3], uma
das principais associações reconhecidas e apoiadas pela própria União Europeia pelas
razões supracitadas, consiste em simular o processo legislativo dos vários
órgãos da união, nomeadamente o Conselho da União Europeia e o Parlamento
Europeu, onde os participantes, representando ministros ou eurodeputados de um
dos 27 estados membros da união, analisam, debatem, e emendam as diretivas ou
resoluções vindas da Comissão, de acordo com o artigo 294º do Tratado de Lisboa
. Ou seja, através dessa simulação culturalmente e academicamente enriquecedora,
jovens a partir dos 18 anos dos vários países membros e países candidatos ao bloco
entram em contacto direto com a principal expressão do Direito Administrativo:
as diretivas e resoluções da União Europeia.
Como já aqui enunciado, a evolução conturbada do
Direito Administrativo desencadeou uma nova realidade nesse ramo do direito: o
Direito Comum. Onde a partir do final do século XX e inícios do século XXI,
verificamos o surgimento de um Direito Europeu do Contencioso Administrativo,
que tem como objetivo a concretização e regulação de políticas públicas, através também dos
direitos administrativos de cada estado membro e vice-versa, sendo atualmente
impossível desassociar uma realidade da outra[4].
Essa nova e própria ordem jurídica criada levou a que, nos dias de hoje, se não
todo, a grande maioria das diretivas e regulamentos, sendo as primeiras
entendidas como transposições sucetíveis de adaptação pelos Estados Membros e
as segundas caracterizadas por serem diretamente aplicáveis, provenientes dos
órgãos e instituições competentes da União, são de matéria administrativa.
Significando que nas MEUs também são, na grande maioria dos casos, analisados resoluções
e diretivas de matéria administrativa.
Como exemplo, temos o regulamento da Comissão sobre disseminação do
terrorismo online[5],
com o intuito de proteger os europeus contra o terrorismo e evitar sua
propagação, e que tive a oportunidade de analisar, debater e emendar como Ministra
da Itália no Conselho de Ministros da União Europeia. Outro diploma analisado foi
o programa responsável por estabelecer as ações concretas da União Europeia no
campo da saúde, conhecido como “EU 4Health”[6], que
tive a oportunidade de emendar em minhas competências como Eurodeputada do Partido
Popular (EPP) no Parlamento Europeu.
Todos esses diplomas incidem sobre o escopo administrativo da UE e,
portanto, dos estados-membros do Bloco na medida em que são relativos segurança
e saúde, respetivamente. O que significa que desde março de 2021[7] tenho
lidado e examinado minuciosamente diretivas e regulamentos que versam sobre
matéria administrativa, assim como muitos jovens europeus que têm uma paixão pelo
sistema da União Europeia e querem entender melhor como questões do nosso dia a
dia ganham vida, quem é responsável por elas e como cada país membro de
posiciona sobre.
Em conclusão, as simulações da União Europeia não são apenas um espaço de
debate entre jovens europeus, é muito mais do que isso. É um espaço de
aprendizagem, conscientização, e garantia de que o futuro da UE e, portanto,
dos seus países membros, está em boas mãos. Um lugar onde nós passamos a
entender melhor a importância da administração no nosso dia a dia e seu impacto
na vida dos europeus.
A frase talvez clichê “só se aprende na prática” afinal é verdade. Digo por
experiência própria, se não fossem as simulações da UE, eu não teria noção do
impacto daquilo que aprendo em sala de aula tem nas vidas dos cidadãos
europeus. Essa, assim como muitas iniciativas europeias voltadas para jovens,
devem ser fomentadas e propagadas, para o futuro da União Europeia e,
consequentemente, do direito administrativo.
Bibliografia:
V. Pereira da Silva, O
Contencioso Administrativo no Divã da Psicanalise, 2ª ed., Lisboa,
Almedina, 2008, reimpr., p 106ss
[1] https://onehourforeurope.org/ , 22 de novembro de 2021.
[2] https://meu-strasbourg.org/ , 22 de novembro de 2021.
[3] https://www.beta-europe.org/ , 22 de novembro de 2021.
[4] V.
Pereira da Silva e I. Wolfang Sarlet, Direito Púbico Sem Fronteiras,
Lisboa, Instituto de Ciências Jurídico-Políticas, 2011, pp 545-562.
[5] https://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/ALL/?uri=CELEX:52018PC0640 , 5 de dezembro de 2021.
[6] https://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/?uri=CELEX%3A52020PC0405 , 5 de dezembro de 2021.
[7] O primeiro MEU em que participei foi organizado
pela BETA Portugal: https://www.beta-europe.org/conference/meu-digital-2021/
, 5 de dezembro de 2021.
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